Entrevista: Alexandre Moraes

CAPA_PONTO_MORTO_finalO corpo e as noções de perda, de amor e de tempo fazem parte das obras de Alexandre Moraes, tudo isso inundado pela água, elemento sempre presente na sua poesia, seja em estado de chuva, mar ou enchente. Em Pintura para primeiros barcos, seu mais novo livro, esses temas retornam ainda mais fortes e fazem parte de um único longo poema, que Alexandre decidiu dividir em três livros.

Pintura para primeiros barcos é o primeiro dessa trilogia e o autor conta um pouco como foi o processo criativo para compor essa obra e alguns planos para o futuro da sua editora, a Aves de Água.

Eu reli alguns dos seus livros e percebi que a água é uma questão comum na sua obra e que agora retorna em Pintura para primeiros barcos. Inclusive esse título me lembrou de um verso seu: ‘vivemos a tormenta de sair do barco ainda que tudo esteja sob o mar’. Eu queria que você falasse um pouco da importância da Água nos seus textos

Tudo que está dentro do meu texto de alguma maneira tem a ver com questões inconscientes e de experiência. E uma das questões que mais me marcaram é exatamente a questão da água. Primeiro que eu venho do Rio de Janeiro e na época que eu vivi lá, todos os anos havia enchente e a conseqüência era miséria e desgraça. Depois que vim para o Espírito Santo, isso não mudou por que aqui também tem enchentes, e ainda tem outra coisa, a seca.

Eu sou uma pessoa que tem dois lugares na cabeça: Vitória e o Rio de Janeiro, tanto que às vezes eu não tenho certeza de onde eu sou. E a água é um elemento continuo na minha vida por que o tempo todo havia essa pressão da natureza. Isso é tão forte em mim que eu até tenho um livro chamado Preparação para o Exercício da Chuva (2010), e essa chuva é um sofrimento. Mas também a chuva não é só isso, meus textos mostram mais do que o sofrimento. E água tem essa dualidade, apesar da dificuldade há uma necessidade em se viver dentro. Hoje eu vivo numa ilha, mas antes eu morava no Rio de Janeiro do lado da praia, então eu sempre tive essa relação com o mar e nos meus livros eu não marco esse espaço, eu nunca digo se é Vitória ou se é o Rio, quem quiser que se localize.

Então, a água para mim foi sempre infinita, é o lugar do perigo, é o lugar do prazer, da felicidade e muitas vezes eu me encontro desesperado e preocupado com água e por isso muitas vezes é necessário se preparar para esse exercício, se preparar para estar em contato com a água. Estar com água é estar no infinito, é estar com a linguagem e é por isso que eu acho que ela aparece tanto na minha poesia. É impossível se afastar da linguagem e, portanto, é impossível se afastar da água.

A pintura, no título do livro, é uma interferência. O que é essa tinta, essa alteração nesses primeiros barcos?

Pode ser muita coisa (risos). Logo que pensei nesse título, eu me lembrei do Guimarães Rosa e o livro Primeiras Estórias (1962), apesar de não ter pensado nisso antes de escrever. Na verdade se trata também da própria pintura, um exército que eu também faço. O problema é que esses barcos são os móveis da vida, a tortura da vida, a felicidade, enfim, os quatro barcos da vida. Mas esse título também tem a ver com interferência e tem um detalhe que eu sempre levo em consideração: a todo o momento estamos recomeçando. É preciso nascer várias vezes durante a vida e começar um novo movimento e para isso precisamos saber de onde vamos partir. Então, se estamos sempre recomeçando estamos sempre em primeiros barcos. E quando você não está em primeiros barcos certamente você morreu.

É verdade que você chegou a pensar em não publicar o Pintura para Primeiros Barcos por que o achava muito estranho?

Quando eu terminei de escrever o livro eu fiquei em dúvida, por que eu achava esquisito, achava a forma dele meio arbórea, os poemas terminam e ao mesmo tempo são um poema só porque eles não têm títulos. Então eu mostrei ao Saulo Ribeiro e ele elogiou e logo topou fazer, depois eu mostrei ao Caê Guimarães, e ele também gostou muito do livro e por fim mostrei ao Casé Lontra Marques, que também concordou que era um livro muito bonito e que deveria ser publicado. Essas três pessoas deram muita força por que eu acho um livro muito diferente dos anteriores. É um livro que eu trato desde a água, trato de nascimentos e das misérias todas da vida. E tudo costurado pelo amor, seja pelas palavras ou pela linguagem, não tem como falar de nada disso sem falar de amor. E o título me incomodava no começo, assim como todo o livro. É uma obra que eu não acho fácil de ler, é minha obra mais rasgante e intimista.

O Pintura para primeiros barcos faz parte de uma trilogia, como é isso? Os outros dois serão publicados?

A ideia é essa, os livros já estão escritos,mas eu ainda não publiquei por que eles vão fazer parte de um projeto maior. A nossa editora, a Aves de Água, está construindo um site e todos os livros serão disponibilizados online. Inclusive, além das obras o site vai ter ilustrações, entrevistas, outros livros além dos meus.

Agora por que eu pensei em uma trilogia? Na verdade a vida é uma trilogia, nasce, dança, dança, dança e morre. Mas por outro lado eu também acho que a vida é uma coisa só. Quando você pensa nesse nascer contínuo, a vida é infinita e não há como dividir o infinito. É uma trilogia por serem três livros, mas ao mesmo tempo é uma coisa só. Porque eu estou falando de coisas circulares, que não têm começo, meio e fim. A vida às vezes parece igual ou parece toda dividida, mas na verdade ela é uma coisa só.

Costumo fazer uma provocação para os poetas que eu entrevisto, afinal, para que serve a poesia?

Um amigo meu que é filosofo me disse uma vez, “a filosofia e a poesia são irmãs, mas entre elas há um abismo e esse abismo é a linguagem”. Além disso, ele também dizia outra coisa, “a poesia é inútil, porém absolutamente necessária”. Tudo o que de alguma maneira eu faço, eu faço a partir de um princípio filosófico, e não só eu, todo mundo. Todo o homem é filósofo de alguma maneira, porque nós precisamos ter conceito, nós estamos a todo o momento conceituando as coisas. E uma das mazelas da sociedade é que ela necessita demais da poesia, mas não consegue perceber que a utilidade dela é de outro nível, e por isso não consegue dar a poesia o lugar exato que ela merece. Ninguém consegue se livrar da literatura, seja literatura de baixo nível ou de alto nível, ou você está vendo novela ou você está ouvindo poeminhas em uma canção. A literatura é que todos dizem inútil, mas ninguém vive sem.

Então a poesia serve para você ver mais, por que ela é irmã da filosofia. Mas para que serve ver mais? Serve para tudo, por que sem ver você não faz nada, sem conceituar, sem pensar e sem sentir, nós não fazemos nada. A poesia é ambiciosa, ela se afastou da filosofia um pouco, enquanto a filosofia tenta conceituar e debater, a poesia também quer fazer isso, mas ela faz isso sentindo. Então a poesia serve para você sentir, então como não vivemos sem sentir, ela é fundamental.

1 Comentário

  1. 21 de março de 2017 em 01:43 · Resposta

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