Entrevista: Bernadette Lyra

 

Luisa Grinalda, Grimaldi ou Grinaldi foi uma das primeiras mulheres a comandar um estado brasileiro no século XVI. Mesmo com pouquíssimos registros históricos, Bernadette Lyra resolver resgatar a história da viúva de Vasco Fernandes Coutinho e transformá-la em protagonista de seu 11º livro. O livro A Capitoa foi lançado no dia 3 de maio, na Biblioteca Pública Estadual.

Nascida em Conceição da Barra, Bernadette Lyra é formada em Letras, especializou-se em cinema e fez pós-doutorado em Sorbonne, na França. A escritora já participou de diversas antologias nacionais e internacionais e também já teve um livro censurado. A Capitoa faz parte de uma trilogia que começou com A panelinha de breu, que faz uma paródia com a história de Maria Ortiz. A terceira personagem Bernadette não revela, só espera que a história não demore muito para se configurar, “eu sonho com poder passar uns meses em uma cidadezinha capixaba, só escrevendo. Quem me dera”, revela.

19052014_acapitoaO romance A Capitoa trata de dona Luísa Grinalda, uma mulher do século XVI, que foi a terceira donatária da capitania do Espírito Santo e a única mulher no Brasil a comandar uma capitania. Como surgiu a ideia de contar essa história?

Eu sempre anoto os pequenos fragmentos de imagens e palavras que me ocorrem nos sonhos. Um dia, anotei: “A vida de uma mulher é feita de três vidas: aquela que se diz que ela teve; aquela que ela bem poderia ter tido; aquela que ela teve, de fato, e não será conhecida jamais”. Depois, pensei que essa frase poderia servir para que eu escrevesse a história de alguma mulher. De preferência, uma mulher que representasse outras, esquecidas pela História da Humanidade. O difícil seria escolher.

Então, tive um insight: eu já havia escrito sobre Maria Ortiz, por que não escrever sobre a donatária Dona Luiza? Era a personagem perfeita para eu encaixar nas três vidas daquela frase sonhada. Nos anais quinhentistas não há quase nada sobre ela. As duas ou três linhas que a mencionam estão sempre metidas nos feitos dos homens como apêndices ornamentais. Não sabe nem mesmo seu sobrenome, que se desdobra em três: Grinalda, Grimaldi ou Grinaldi. E de seus amores, sofrimentos, desejos, alegrias, tristezas nada se conhece. Enfim, Dona Luiza pulou do passado e me apareceu como a matéria e a substância perfeitas para que eu aplicasse minha imaginação.

Apesar do contexto histórico é um romance de ficção assim como Panelinha de Breu (1993), que faz uma paródia sobre Maria Ortiz. Como é contar a história dessas mulheres que são pouco lembradas pelos livros de histórias? Há uma pesquisa mesmo com pouco registro sobre elas?

No caso desses meus dois livros, A Panelinha de Breu e A Capitoa, foi fascinante mesclar ficção e pesquisa na historiografia. E eu pesquisei muito. Antes e durante a escritura. Porém não faço romance histórico. Eu brinco com a História. Historiadores se preocupam com fatos, datas, confirmações. Buscam dados, registram o que acontece ou que aconteceu. Documentos, cartórios, manuscritos, arquivos, nada lhes é estranho. Ficcionistas, no entanto, só contam com a fantasia e com o risco.

Boa parte de suas obras, senão todas, são protagonizadas por mulheres. A Capitoa é também um livro sobre o universo feminino e conta principalmente as dificuldades e preconceitos que as mulheres enfrentavam naquela época apenas por estarem na condição de mulher. Há uma militância feminista em abordar esses assuntos?

Eu gosto de falar do que reconheço. Sou mulher e, em minha ficção, falo sobre mulheres, suas questões existenciais e seus sentimentos. O homem para mim é um desconhecido, um enigma, o outro lado da Lua. Talvez esteja sendo feminista quando deixo explícito que, em matéria de liberdade feminina, do século XV até hoje, o mundo não avançou tanto quanto alguns apregoam. Ainda há muito preconceito, muita discriminação, muito medo, muita opressão. Mas sei que a necessidade de enfrentar esses horrores faz parte de uma luta que perpassa ambos os sexos.

É verdade que A Capitoa Faz parte de uma trilogia que começou com A Panelinha de Breu? Sobre quem será a terceira obra?

Sim. Já estou recolhendo ideias e escrevendo sobre uma terceira mulher que completará essa trilogia de brincadeiras com a História do Espírito Santo. Mas não vou contar ainda. Só digo que Dona Luiza viveu no século XVI, Maria Ortiz no século XVII, e a minha personagem, agora, foi colhida no século XVIII. Espero que, dessa vez, a história não demore tanto a se configurar. Eu sonho com poder passar uns meses em uma cidadezinha capixaba, só escrevendo. Quem me dera!

Um de seus livros Aqui Começa a Dança (1985) foi censurado na época e considerado pornográfico. A senhora 960126_10152123755207603_2058935999_npode explicar melhor essa passagem?

Foi um episódio que seria cômico, não fosse trágico, em sua estupidez. O livro trata da vida entrelaçada de três mulheres. Mas, na época, umas senhoras da censura, em Brasília, acharam que a capa era ofensiva à moral e aos bons costumes, e que era indecente falar de gravidez de uma adolescente e tacaram a caneta vermelha no pobre Aqui Começa a Dança, juntamente com Das trips, coração, de meu amigo, o escritor Dau Bastos, e outros. Engraçado que eram livros de uma só editora, a Marco Zero, que era tida como “subversiva”. Isso provocou um movimento de revolta entre artistas, poetas e escritores, houve matérias de revistas e jornais protestando e até um abaixo-assinado, pela liberação dos livros, que circulou em todo o país. Foi uma gritaria boa! E nós, os ditos “escritores pornográficos” saímos pelo Brasil afora a fazer palestras em universidades e colégios contra a censura na literatura. Nem preciso dizer que as edições dos tais livros pseudo “pornôs” se esgotaram em pouco tempo.

Outra obra muito interessante é Tormentos Ocasionais (1998), livro que não há uma marca de gênero do personagem. Como foi escrever esse livro?

Esse livro também é uma história longa, um romance em fragmentos, sobre as maravilhas e os temores de escrever ficção. Por isso, não há definição de personagem, se é homem ou mulher. Foi o meu livro mais trabalhoso, talvez o mais trabalhado. Tive muito cuidado de não deixar que qualquer palavra, qualquer adjetivo revelasse a identidade sexual de quem narra a história, que é contada por uma criatura da qual nada se pode afirmar, a não ser que sofre com delícia e goza com desespero, enquanto remexe as feridas de algumas lembranças.

Muitos escritores capixabas comentam sobre as dificuldades em romper com as barreiras do estado e sair da ilha. Como é publicar fora do Estado?

Tive a sorte de ter muita gente que lia o que eu escrevia e achava que era publicável. Mas publiquei no Espírito Santo também. Meus primeiros livros de contos As contas no canto e O Jardim das Delícias foram editados pela Fundação Ceciliano Abel de Almeida, de Vitória. Sou grata a todas as pessoas que me incentivaram, que apostaram na publicação de meus livros e que leram e leem o que escrevo, independente do lugar em que estão.

A senhora é formada em Letras, especializou-se em cinema e fez pós-doutorado na Sorbonne. O que a levou a lecionar Literatura e Cinema? Comente também um pouco sobre o trabalho com o Cinema de Bordas”?

O cinema entrou em minha vida quando eu ainda era menina, em Conceição da Barra. Meu avô tinha uma sala de projeção bem singela e interiorana e eu já via filmes ainda no colo de minha mãe e tias. Gosto das histórias contadas em imagens. Isso me levou a fazer um doutorado em Cinema, na ECA/USP. Gosto também do cinema que é feito por amadores, realizadores corajosos e sem grana, mas com muita garra, e que fazem filmes com muita graça. Criei o termo “Cinema de Bordas” para melhor caracterizar esse cinema periférico, bem popular e divertido. E o nome pegou. Hoje, os cineastas, os estudiosos e a mídia usam o “cinema de bordas” com naturalidade. Continuo a dar aulas de cinema, em São Paulo. Mas a Literatura é que é o sal de minha vida.

A senhora teve contos incluídos em coletâneas holandesas, já participou de diversas antologias e foi indicada para o Prêmio Jabuti. Contudo, fale-nos um pouco do começo de sua carreira, quando percebeu que faria da escrita um ofício?

Sou uma escritora bastante consciente do meu ofício. E tudo começou de modo que, hoje, me faz rir. Foi quando eu tinha sete anos, já sabia ler e escrever, e me meti a fazer uma peça de teatro para representar com minhas amigas no fundo do quintal da chácara de meus pais, em Conceição da Barra. Graças aos deuses, essa “peça teatral” se perdeu.

Mas a verdade é que meu avô era um homem sábio e autodidata, embora fosse um simples quitandeiro, vindo do sertão de Itaúnas, como ele mesmo dizia. Desde que eu era muito criança, ele me dava os livros de sua estante. Era como um mundo mágico para mim. Eu lia tudo que me caía nas mãos. Descobri que escrever e contar histórias, à minha maneira, era tudo que eu mais desejava. Depois, quando estudava no colégio do Carmo, tive Guilherme dos Santos Neves como professor de português. Foi ele quem, um dia, depois de ler uma pequena redação escolar minha, disse: “Menina, a senhora é uma escritora!”. Essa frase bateu fundo em meu coração. Eu tremi nas bases. Então resolvi que essa seria a minha profissão mais querida, a que guardo com mais zelo. Desde então faço da literatura meu bem, meu zen, meu mal e o exercício meu de cada dia.

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