Entrevista: Caê Guimarães

capa valendo (1)“Somente aos olhos é permitido tocar a distância”. Esse foi um dos primeiros versos que li de Caê Guimarães. Ainda estava na universidade e não conhecia nada da literatura produzida no Espírito Santo e os livros do Caê foram os primeiros que conheci dos escritores daqui. Não demorou para que sua poesia me inspirasse a escrever também.

Caê se divide entre o conto, a crônica e os poemas. Entre suas publicações ele tem 3 obras de poemas Por baixo da Pele Fria(1997), Quando o dia nasce sujo (2006) e, o mais recente, Vácuo (2015). “Penso no poeta como um bruxo, ou seja, alguém que conjura, porque poetas e bruxos trabalham com o princípio da analogia”.

Na entrevista, Caê fala sobre processo criativo, como foi traduzir o seu primeiro livro para o Catalão e os planos de publicar um romance.

Vácuo é o seu terceiro livro de poesia e eu percebo, assim como nos dois livros anteriores, a presença de temas como o corpo, o erotismo, a ironia, como foi nascendo os temas desse livro?

Desde sempre meus poemas carregam uma visão nada ou pouco metafísica do corpo. Órgãos e membros são neles objetos receptores de forças, tensões, potências. Este é um sentido funcional. Mas também erótico. Narizes, orelhas, olhos, dedos, línguas e todas as sensações físicas formadas neles são antenas nestes poemas. Somos espíritos ou consciências – de acordo com a gnose de quem professa – grudados à carne. E no erotismo, nossa carne sorri.

A ironia é oxigênio, né? É o olhar de quem entende que tudo é um grande engodo, que a vida é um circo e que não existe dentro e fora da lona. Tudo é lona e estamos todos dentro dela. A ironia é uma reação inevitável em um mundo que navega sobre a espuma sem nunca mergulhar. Um mundo que se abstém do abismo. Toda arte verdadeira está impregnada de uma farta dose de ironia. E principalmente de um mergulho profundo no tal abismo. O resto é perfumaria.

Mas há outros temas comuns em Por Baixo da Pele Fria, Quando o Dia Nasce Sujo e Vácuo. E uma distância de 17 anos entre o primeiro e o terceiro (tenho mais dois livros publicados, uma novela chamada Entalhe Final e as crônicas do De Quando Minha Rua Tinha Borboletas). Em todos eles há morte. Solidão. Solitude. Ausência. Memória. A natureza como extensão das forças e potências às quais me referi ao falar do erotismo. E, veja você, temos aí outra cópula, corpo e natureza no mesmo leito, participando da mesma experiência de esgarçamento da carne e do espírito/consciência. Nos três livros de poesia, e nos outros também, falo de transcendência. Da experiência de estar vivo, ou melhor, da vida vivida como processo e experiência.

E há também alguns temas concernentes a cada um deles em separado. Vejo em Por Baixo da Pele Fria referências ao cinema e técnicas de montagem, onde os poemas são construídos como no processo da escolha e corte de imagens em uma ilha de edição. Em Quando o Dia Nasce Sujo há uma profusão de bichos. Cães, aves, lagartos, aranhas, utilizados como elementos antropomórficos, ou antropomorfizados por mim. No Vácuo, uma das recorrências é o boxe, influência direta do tema do Encontro Você No 8º Round, um romance em construção. Na verdade, escritores, poetas e artistas em geral continuam a se debruçar sobre os mesmos temas que rondam a pobre cabeça humana desde a antiguidade, amor, ódio, ternura, violência, sexo, vida, morte.

Que vácuo é esse que você se refere no titulo?

O senso comum seria pensar nos grandes vão, nos grandes vazios, no oco, mas o Vácuo ao qual me refiro, e nele o livro está embebido, é o nano vácuo, o microscópico espaço entre pessoas e pessoas, pessoas e coisas…….essas micropartículas espalhadas por toda a poeira dos nossos dias. O vácuo absoluto não existe na física, um lugar com zero de pressão é um lugar imaginado, um não lugar. Isso sempre me intrigou. Não seria uma boa subversão termos, cada um de nós, acesso a isso? Um vácuo, um espaço, infinito ou infinitesimal, onde impera o silêncio e de onde pudéssemos sair e entrar sempre com liberdade? Deste silêncio vem o indizível, o irrepresentável, a não concretude, o não ser. Isso descamba na ideia do zen, né?

Somos uma civilização criada e calcada sobre a palavra. Os pastores do mediterrâneo herdaram isso dos hebreus, um código, um sistema onde as coisas se fundam e sustentam na ideia de que no princípio, era o Verbo. Profetas, inclusive Cristo é Maomé, foram oradores, poetas. E em contraposição a isso, e muito próximo da ideia do vácuo – ou ao menos do Vácuo que construí – temos o Satori japonês, a iluminação. O próprio zen se funda, não na palavra, mas em um imenso silêncio de Buda. Eis aí o Vácuo. O olhar curioso de um menino por um buraco de minhoca que leva a uma fração infinitesimal de tudo, e a um vasto e imensurável espaço contido na molécula. A poesia trata de tudo que preexiste. Vácuo, no caso desse livro, passa muito por aí, a explosão de silêncio um segundo antes de tudo.

Sua poesia é sempre bastante ritmada, seja com jogo de palavras ou pela métrica, é proposital?

Poesia é, sobretudo, ritmo. Octávio Paz disso isso em O Arco e a Lira. Concordo. Um idioma é uma totalidade indivisível. E a linguagem, minha ferramenta de trabalho, é como o universo, um jogo de chamadas e respostas, fluxos e refluxos, expansões e introspecções. E como tudo no universo, palavras também vão se atrair ou repelir. André Breton diz com muita propriedade que as palavras fazem amor. “Lesmotsfontl’amour”. Ideias, pensamentos, frases, tudo isso é ritmo, eco. Todo fenômeno verbal contém um ritmo primordial. São princípios rítmicos que aglutinam e separam as palavras. E de certa maneira, reproduzir esse ritmo, e reinventá-lo, é o que nos dá poder sobre a palavra. Volto a Otávio Paz, que diz “a criação poética consiste, em boa parte, na utilização voluntária do ritmo como agente de sedução”.

Mas o ritmo, este que abordamos na poesia, não é uma medida vazia e abstrata. Ele é o tempo original, inseparável de conteúdos concretos. Acredito que essas frases rítmicas, que a princípio imprimi intuitivamente para depois incorporá-las ao meu trabalho, têm a função de recriar o tempo. De certa maneira o ritmo antecede o próprio surgimento da linguagem e da língua. Como dizia o saudoso maestro Jaceguay Lins, também ele um poeta. “o universo percute”. Ritmo é imagem e é sentido, e não sistema de metrificação. E assim sendo, uma das armas das quais disponho e ponho no que faço. É isso. Ritmo e melodia na música do silêncio.

Há também alguns poemas que se aproximam da prosa. É algo que você tem explorado mais?

Na verdade, nos últimos anos abri bastante o obturador da minha lente. Passei a escrever de maneiras distintas. A poesia que sempre escrevi surgiu e ainda é composta de um léxico beatnik aderido a um jogo melódico provençal. Desde sempre estruturas aliteradas, interpoladas, sobrepostas, com o uso consciente de duplos, sílabas repetidas em palavras diferentes de um mesmo verso, um verso de uma palavra dentro de um verso de uma palavra. Meu trabalho nasce 24, 25 anos atrás, como essa marca. A princípio, também, por puro instinto. Mas com o avançar do tempo de maneira cada vez mais consciente. Há alguns anos tenho trabalhado também em haicais, poesia concreta – ou de inspiração concreta – poemas melopaicos escritos com técnica de fluxo de consciência, que é usada na prosa. Vivo me provocando novas possibilidades de tentar domar esta massa moldável, este sem fim de possibilidades chamada linguagem.

No lugar de afunilar por um estilo, quer dizer, por uma maneira de fazer poemas, preferi arrebentar a linha que separava o que sempre fiz de novas possibilidades e formas. Poetas e escritores precisam estar sempre muito atentos às armadilhas da conformidade, da fórmula dominada, da zona de conforto. O grande lance é mergulhar nessa partícula subatômica que pode ser chamada, puxo aqui a brasa para a minha sardinha – vácuo. E ao chegar aí, compor-se e compor todas as possibilidades deste devir.

Concomitante a isso tudo estou escrevendo o Encontro Você no 8º Round, minha primeira tentativa de romance. É uma narrativa na primeira pessoa, em um jorro de fluxo de consciência e pode ser chamado, sob alguns aspectos, de prosa poética. Penso que todas estas possibilidades que tenho trilhado convergem para novas formas de fazer poesia.

Você tem publicado muito no facebook, como por exemplo os haiquases, há também algumas experimentações com áudio e vídeo e também os poemóbilis. Como essas novas linguagens influenciaram nesse livro?

O lance de publicar poemas no facebook começou por puro instinto em 2008, logo que fui adicionado por amigos da França. Achei que era um novo Orkut, e em muitos aspectos é. Poucos dias depois de conhecer esta rede postei um poema, depois outro, e estamos aqui em 2015. Sempre posto o que está em estado bruto, de certa maneira é como mostrar um rascunho para as pessoas. E, obviamente, tenho o intuito de atingir mais pessoas, ter mais leitores, mais possibilidades de diálogos. Convivi alguns anos com o MassaoOhno, além de me apresentar ao universo do haicai conheci, por suas mãos, muitos haicaistas. Não me considero um, mas gosto do flerte com essa forma, tão fixa e minimalista, tão maleável e vasta. As experimentações com áudio, em volume bem maior do que em vídeo, surgiram na época em que participei do Espírito Mundo. Ambientações sonoras, e porventura gráficas, têm despertado muito meu interesse. Talvez esteja aí um sinal do poeta melódico, rítmico, melopaico mesmo que sou.

Voltando um pouco no tempo, seu primeiro livro de poesia Por baixo da Pele Fria foi lançado em 1997 e agora ganhou uma versão em catalão, como isso aconteceu?

Eu e Joana Castells, minha tradutora, temos uma grande amiga em comum. Sabíamos da existência um do outro, mas não nos conhecíamos. Ele passou algumas semanas aqui em 2006, mas não nos encontramos. Ainda assim, essa amiga em comum a presenteou com um exemplar do livro. Em 2009, Joseph DomenechPonsatí, também tradutor de português para o catalão e parceiro da Joana, entrou em contato comigo e disse que ambos estavam traduzindo poemas meus. Em 2011 estive em Ventalló, um Pueblo de Girona, cidade próxima a Barcelona. Resolvemos trabalhar alguns textos para plaquetes, até que a Joana inscreveu o projeto de tradução em edital da Fundação Biblioteca Nacional. Aprovado, o livro foi lançado em edição bilíngue com o título Per Sota de La PellFreda, literalmente Por Baixo da Pele Fria, em 2013.

Porque o Por Baixo da Pele Fria, o que esse livro representa pra você?

Uma exigência no Edital da Fundação Biblioteca Nacional é que a obra a ser beneficiada tenha sido publicada. Na época eu tinha dois livros de poesia, mas o Por Baixo da Pele Fria tem um significado muito especial para a Joana Castells. Após um pequeno acidente nos Pirineus ela ficou algumas semanas em estado de amnésia. Ao acordar, teve neste livro um dos elementos para lembrar não apenas que domina o português, mas também que é tradutora. Quando tivemos que decidir, foi óbvia a escolha. Há que estar sempre atento às forças do acaso, como neste caso.

Você participou do processo de tradução? Como foi? Afinal, traduzir poemas é algo muito difícil devido ao jogo de palavras as rimas…

Sim, e isso foi muito enriquecedor. Antes de nada Joana pediu que gravasse todo o livro na minha leitura e a enviasse. Ela queria entrar no sentido e no ritmo – olha ele aí de novo – que imprimi ao escrever cada poema. Depois tivemos reuniões via skype, trocamos longos e-mails e fomos encontrando nossa linha fina, nossa sintonia. E neste processos há adaptações a fazer a cada poema. Um exemplo. Em um deles falo “apertar o nó para fazer enxergar melhor a cabra-cega”. Mas na Catalunha, a cabra-cega, brincadeira de vendar os olhos de alguém e faze-lo tatear no vácuo procurando pessoas, chama-se galinha-cega. Em casos como este prevalece o entendimento do leitor, é claro. Joana fez uma bela tradução, manteve melodias, climas, ritmos e imagens. E eu aprendi novas palavras em uma língua que soa tão familiar, e a um só tempo tão estranha. E tudo isso feito à distância. É como diz um dos poemas, “nomésalsullselsespermes tocar la distância”, ou “apenas aos olhos é permitido tocar a distância”.

Depois do Por baixo da Pele Fria veio o seu segundo livro de poesias, Quando o dia nasce sujo de 2006, eu percebo uma maior consciência do fazer poesia, um cuidado maior na escolha das palavras, poemas mais curtos e concisos. Como foi a produção desse segundo livro?

Por Baixo da Pele Fria foi lançado em 1997 e reúne coisas que fiz entre 1989 e 1996. Quando o dia Nasce Sujo foi lançado nove anos depois, em 2006, com coisas produzidas entre 1997 e 2005. Há uma consciência maior sim, e ela vem do adensamento que o tempo e o trabalho proporcionam. Mais leituras, mais vivência, mais horas/voo. Além disso, nele, busquei um diálogo com a poesia de João Cabral de Melo Neto. Sempre tento dialogar com a poesia de Cabral, para mim o maior poeta da língua portuguesa em todo tempo e lugar. Mas nunca consigo, e essa frustração na verdade me alimenta. Mas a concisão, a despersonalização, coisas tão essencialmente cabralinas, estão lá.

Você nasceu Rio e mora em Vila Velha há muitos anos, a cidade te influencia na hora de escrever?

Sim, claro. Na verdade moro em Vila Velha e vejo Vitória todos os dias. É a cidade onde estudei e me formei, onde vivi a maior parte das minhas descobertas pessoais e profissionais. Mas tenho outras cidades fetiche. O Rio, onde nasci, Belo Horizonte e Ouro Perto, onde vivi, e cidades por onde passei períodos longos ou curtos, como Córdoba, Granada, Barcelona e Girona, na Espanha, Chartres, Paris e Celles-sur-Belle, na França. Cidades onde vivi coisas, cidades que me abrigaram, cidades que me compõem. E Vitória tem um lugar muito especial nestes afetos. E de um ano para cá tenho frequentado Curitiba, e esta já se tornou uma das minhas cidades fetiches.

E o romance Encontro Você no 8º Round? Tem previsão para sair já?

Ainda estou escrevendo o Encontro Você no 8º Round. Só consigo pensar na publicação depois do livro pronto. Há editores e escritores interessados em conhecê-lo. Vou termina-lo, creio, até a metade do ano. Depois vêm as releituras, os ajustes. Aí sim vou parar para pensar na publicação.

Podemos terminar a conversa com uma provocação, Afinal, pra que serve a poesia?

A poesia é a mãe das artes (Torquato Neto). É um inutensílio (Paulo Leminski). Ela serve para reconfigurar os neurônios do leitor em novas conexões, ou não servirá para nada (Fernando Achiamé). Poesia é fome de realidade (Octavio Paz). Penso no poeta como um bruxo, ou seja, alguém que conjura, porque poetas e bruxos trabalham com o princípio da analogia. O que eles teriam em comum? Agem com fins práticos e imediatos. Não se perguntam o que é o idioma, no caso do poeta, ou o que é a natureza, no caso do bruxo. Ao contrário de juristas, filósofos ou engenheiros, bruxos e poetas extraem seus poderes deles mesmos. Como na magia, a poesia requer uma revelação que só se realiza na busca interior e na disciplina necessária ao desvendamento. Ambos também são figuras prometeicas, que é o rebelde primordial e pioneiro, aquele que rouba o fogo dos Deuses, que ousadia, para partilha-lo com os seres. Poesia é um pouco isso, uma forma de dizer um sonoro não aos Deuses e um convicto sim à vontade humana, que se torna maior do que a técnica, maior do que o sobrenatural. Gosto de pensar na ideia do poeta como um tradutor, um ledor de arcanos que, após domina-los, os divide com o leitor.

2 Comentários

  1. Caê Guimarães
    8 de maio de 2015 em 14:41 · Resposta

    Obrigado Lívia. Adorei as suas perguntas.

  2. 11 de julho de 2015 em 21:49 · Resposta

    Adoreei!! Minha xará. Lívia <3 Hashuauashausaua

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