ENTREVISTA: KARINA BURH

Essa entrevista foi publicada na Revista Trino #2. Saiba mais aqui 

karina

Nordestina, intensa e de pé no chão, mas com salto alto, meia arrastão e maquiagem, a arte de Karina Buhr transborda os gêneros: cantora, atriz, compositora, percussionista e escritora. Seu primeiro livro, Desperdiçando Rima (2015), é difícil de definir, a princípio é um livro de poemas, já que não falta poesia em tudo que a artista produz. Na entrevista, Karina fala sobre seu processo criativo, participação na Flip e, claro, feminismo.

Como é seu processo de escrita, há uma diferença entre o que vira música e o que você guardou para o livro?

Não tenho um modo fixo de fazer. Às vezes faço letra e melodia ao mesmo tempo, às vezes fico com uma melodia um tempo e depois faço uma letra e às vezes escrevo algo e musico depois.

Como surgiu a ideia para o livro Desperdiçando Rima?

Foi um convite da editora Rocco. Sempre pensei em um dia escrever um livro, ou mais… Mas não teria sido agora se não tivesse acontecido o convite. Por conta dele adiei um pouco o terceiro disco.

O seu livro mistura vários gêneros, além de ter ilustrações também, como foi o processo de montá-lo, escolher esse conjunto de textos e imagens?

Comecei a partir de uns textos que escrevi pra Revista da Cultura, onde tenho uma coluna (com texto e ilustração) há três anos. Fui modificando um pouco eles, peguei algumas coisas que tinha guardadas e daí fui criando coisas novas de texto e ilustrações. Isso de ter poesias, crônicas e desenhos foi uma liberdade que a editora deu e fui aproveitando ela ao máximo durante a criação do livro.

Apesar dessa mistura, os poemas são maioria, qual a sua relação com a poesia? Você lê muito? Quais as suas referências?

Gostaria de ler mais do que leio. Independentemente disso não tenho algum autor ou autora que eu possa citar como referência pro meu trabalho. Tanto na música como na escrita ou nos desenhos faço tudo de um jeito intuitivo, buscando minha linguagem, sem pensar em alguma referência. Claro que tudo o que a gente ouve e lê de alguma forma nos influencia, mas deixo isso acontecer naturalmente.

Como foi a sua participação na Flip? Como foi estar ao lado de Arnaldo Antunes?

Foi uma surpresa maravilhosa o convite pra Flip. Foi o meu primeiro livro e recém-lançado. Tinha muita vontade de ir como público, mas ainda não tinha acontecido, então minha primeira vez lá foi como autora convidada. Foi muito importante estar na Flip numa mesa com Arnaldo, um artista que admiro tanto, em tantas frentes diferentes e com Noemi Jaffe, essa escritora incrível, como moderadora. E ainda aconteceu uma segunda surpresa, o Desperdiçando Rima ter ficado entre os três mais vendidos da Flip.

A gente sente que alguns dos seus textos parecem mais confessionais, mas você também se coloca muito no lugar do outro para escrever. Como é isso?

Sempre penso em personagens e roteiros, então mesmo quando possa parecer confessional é uma personagem ali e uso isso com total liberdade, mudando muitas vezes histórias que possam ter sido minhas. E um dos grandes mistérios de criar personagens é se colocar dentro delas, tentar ver pelos seus olhos, mesmo sendo ainda você ali, tem muita poesia dentro disso, também gosto desse lugar.

Ultimamente começaram a desconstruir a “literatura feminina” como um gênero. O que você acha disso?

Não existe literatura feminina, inclusive porque isso presume que A Literatura, com L maiúsculo, seja coisa de homem. Existe literatura ponto. Homens e mulheres fazem literatura, não se separa por gênero nem isso nem tantas outras coisas que nos acostumamos a separar, por vício cultural e social. Sobre isso de “ultimamente começaram a desconstruir a literatura feminina”, é na verdade a desconstrução de uma coisa construída pelo machismo.

 

 

Deixar um comentário