Entrevista: Natália Borges Polesso

Amigas, amantes, filhas, irmãs, avós, Amora é um livro sobre a relação entre as mulheres. Os contos do livro de Natalia Polesso focam nas relações homoafetivas, mas também sobre ser mulher neste nosso mundo louco.

Recomeços, rupturas e aceitação são os temas que permeiam esse livro dedicado a todos os amores e amoras. E para entender melhor esse universo conversei com a autora que respondeu algumas questões.

Amora-CAPAAmora é o seu terceiro livro, o que mudou com o lançamento dessa obra? Você sentiu que houve um reconhecimento maior do público leitor?

Senti. As pessoas vêm me falar do Amora, mandam mensagem, e-mails, querem conversar sobre, eu fico muito feliz, porque isso não aconteceu com os meus outros livros. Quer dizer, fora pessoas próximas, apenas um ou outro desconhecido. Mas com o Amora está sendo diferente. Gente que eu não conheço vem falar comigo. Eu sempre respondo que fico muito contente com esses retornos. E fico mesmo, porque é isso que importa. É assim que percebo que fiz algo significativo, que tocou as pessoas, provocou algum tipo de reação.

Você acha que esse reconhecimento veio pela carência de livros que dão vozes a vários tipos de mulheres?

Com certeza. Porque os livros que a gente tem acesso com temática lésbica (que temos acesso, digo, que chegam para a gente, que ficamos sabendo) são de algum tempo já. Sei lá, Cíntia Moscovitch, Lygia Fagundes Telles, Cassandra Rios. Agora temos o Amora, o Todos nós adorávamos caubóis, o Um dia toparei comigo, (que não li ainda), e estão aparecendo mais. Eu acho que é espontâneo, são vozes emergentes. E necessárias. Outra questão é a do protagonismo, tanto das personagens quanto da autoria. Quantas editoras pequenas, que fazem um trabalho de formiga estão tentando pôr nas prateleiras mais literatura lésbica? Quantas autoras estão por aí sem visibilidade? Eu quero saber. Quero ler tudo isso (risos).

Qual era a sua intenção ao escrever Amora?

A de sempre. Escrever um livro com histórias legais. Experimentar a prosa, cruzar olhares, trabalhar narradores, estilos, entre outras coisas. Isso da temática é secundário, mas é uma questão que eu penso pra minha vida como escritora. Eu quero escrever histórias que falem de coisas que me tocam, que eu vivo, quero saber quem elas tocam também.

Abordar alguns assuntos ou temas no livro foi intencional?

Não houve um planejamento temático específico, a não ser o fato de ser um livro de histórias com protagonismo feminino. Mas, vamos fazer um exercício, vamos supor que fosse um livro de histórias hétero. Ok. Isso soa tão ridículo. Não há necessidade de avisar ou de questionar a escrita dessas histórias, digamos dominantes, então, o fato da temática lésbica ser questionada como pedagógica ou exemplar (porque já foi questionada como tal), sei lá, já aponta uma diferença no entendimento das relações. Pra mim, o Amora é um livro de contos, um livro sobre afetividade.

Como é seu processo de escrita?

Acho que toda a escrita começa na escuta. Escutar as pessoas, escutar o mundo, escutar as coisas. Às vezes eu começo com pequenas anotações, às vezes com grandes pedaços da história e depois vou lapidando. Às vezes são as personagens que adquirem personalidade e vão levando a história. Tem muita memória minha, muita memória de outros, muita memória inventada. E depois, a gente vai costurando com ficção. Ou seja, é bem aleatório. Fora o fato de eu gostar muito de escrever cedo da manhã, não tenho um método.

Você está finalizando um doutorado em Teoria Literária, como isso influencia na sua forma de escrever? Dizem que quanto mais perto da teoria mais longe da espontaneidade artística, você acredita nisso?

Termino o doutorado no fim do ano, se tudo der certo (risos nervosos). Acho que nisso, sofro do contrário. Minha escrita acadêmica é influenciada pela minha escrita artística. E eu sinceramente espero que isso não seja um problema. Mas não creio que uma coisa se distancie da outra. Espero não estar me distanciando da escrita teórica, ao menos! hahaha

E morar em Paris mudou sua forma de escrever?

Mudou minha forma de ver o mundo. Não apenas por ser Paris, mas por estar pesquisando lá, por ter participado da Printemps Littéraire Brésilien, por ter visitado o salão do livro no ano em que o Brasil foi o país homenageado, enfim, a conjuntura toda. Eu estava em Paris sendo pesquisadora e escritora (graças a uma bolsa da CAPES!). Depois, conheci pessoas incríveis Enfim, Paris inspira. Mas sabe que sempre eu tento fazer o exercício de ver o lugar onde estou com poesia, sempre criar uma relação de afeto com o lugar, isso é bem importante pra mim.

Ultimamente começaram a desconstruir a “literatura feminina” como um gênero. O que você acha disso?

Não acho que seja ultimamente. Acho que ultimamente temos visto mais e mais, o que é um bom sinal, pelo fato de que literatura produzida por mulheres está sendo lida e pesquisada. Mas é uma discussão complexa. Para entender literatura feminina como um gênero, é preciso primeiro entender o conceito de feminino, desconstruir muitas coisas, não cair em armadilhas fáceis e simplistas. O que é o feminino, afinal? Acho que essa é a questão. E é uma puta questão boa.

E te incomoda o livro ser tachado como um “livro sobre lésbicas” sendo que na verdade é um livro sobre várias formas de amar?

Acho que ele é os dois. Porque não dá pra ignorar que as personagens sejam lésbicas. A questão se parece com a anterior, sobre a literatura feminina. O que é uma lésbica? (risos). Acho que o Amora é um livro sobre relações amorosas protagonizadas por mulheres, crianças, adultas, idosas, jovens. Nada me incomoda sobre o que dizem do Amora, mesmo uma resenha ruim, tudo me faz pensar em como ele é importante pra mim, e talvez para outras pessoas.

 

2 Comentários

  1. 31 de março de 2016 em 20:58 · Resposta

    Adorei a entrevista. Fiquei na curiosidade/ e instigado para ler “Amora”. Uma obra com romance e histórias lésbicas .. UAU! Ah .. adorei “(risos nervosos” – deixou a entrevista mais íntima e descontraída. Ah quero conhecer mais sobre a autora e
    suas obras. Lívia, parabéns pela entrevista – amarrou, direitinho, as perguntas!!!

  2. 10 de março de 2017 em 16:09 · Resposta

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