Entrevista: Suely Bispo

Assim como todas as mulheres Suely Bispo não é apenas uma, mas muitas. Atriz, dançarina, pesquisadora e poeta, ela se dedica de corpo e alma a tudo que faz. O seu talento como escritora pode ser conferido no seu livro de estreia Desnudalmas (2008), que com versos singelos expõe e enaltece suas raízes africanas.

Durante a entrevista ela fala um pouco da sua carreira e sobre a concepção do seu primeiro livro e os planos para o segundo. Guerreira, ela ainda comenta sobre o desconhecimento do público da literatura negra, que mesmo sem ser valorizados resistem porque escrever é um imperativo.

Suely não só responde as perguntas como também provoca questionamentos: “Quantos ouviram falar do centenário de Aimé Césaire, em 2013, nome importante da literatura no mundo, grande escritor da Martinica e criador do conceito de Negritude? Ano passado tivemos o centenário de Abdias do Nascimento e Carolina de Jesus em 2014. em 2008, tivemos o centenário de Solano Trindade. Esses nomes tão relevantes ainda não têm a devida visibilidade”.

Capa desnudalmasDesnudalmas, esse nome já causa um estranhamento, uma curiosidade, você pode falar um pouco sobre esse título?

Desnudalma (no singular mesmo) é o nome de um dos poemas do livro. Quando resolvi publicar e criei essa concepção tripartida (erotismo, religiosidade e arte), Desnudalmas me veio como o nome do livro no plural. Esse nome também é um convite ao leitor para adentrar o meu universo poético, que vem desde a capa do livro, com o desenho da Mara Perpétua, de uma janela aberta, que no livro está com fundo vazado.

Penso que tudo isso faz parte da concepção do livro e os artistas gráficos – Edison Arcanjo e Luara Monteiro souberam traduzir muito bem o que eu queria dizer e todo o processo de criação do livro foi muito harmônico com essa equipe maravilhosa. A ideia da nudez do corpo e da alma e ainda a nudez do ator em cena está presente do início ao fim do livro. Lembro que desnudez é nudez em espanhol, mas quando denominei o livro não pensei nisso.

Eu nos seus poemas que você exalta alguns orixás, isso parte de uma vivência sua? Qual a sua relação com as religiões de matriz africana?

Sim. A minha vivência religiosa está presente no livro e ela também é plural e até transcultural. Foi o professor e dançarino, meu amigo Renato Santos que me definiu assim. Ele falou isso em relação ao poema “Axé e Luz”, quando falo dos Orixás e do Johrei ao mesmo tempo. É preciso dizer que, apesar de eu exaltar e respeitar muito as religiões de matriz africana, por caminhos que a vida nos leva e surpreende há dez anos acabei encontrando o Johrei, que é uma prática religiosa de origem japonesa. Lá não tem intolerância religiosa e não preciso negar minhas vivências anteriores. Assim continuo falando dos orixás tanto na poesia, como no teatro, sem problemas. Na hierarquia do Candomblé nunca passei de Abiã – uma freqüentadora, curiosa pesquisadora, mas tenho amor profundo aos Orixás. Com todo respeito procuro retratá-los na minha arte.

Participo do Teatro Experimental Capixaba com o diretor César Huapaya e trabalhamos no grupo com a linguagem e a estética das religiões de matriz africana no palco. Já na poesia “Oxum” foi o segundo poema que escrevi na vida e me acompanha na minha performance de dança afro-brasielira há muitos anos. O poema “Filha de Iansã” me trouxe grandes alegrias ao ser traduzido para o francês por Rosi Andrade – nossa atriz que hoje vive em Paris. Ela cita meu poema na sua dissertação do mestrado na Universidade Paris 8, como um brado da mulher contra a violência. Rosi também sempre usou meus poemas nas suas aulas de teatro e um dia, uma de suas alunas me reconheceu na rua e me falou que o poema “Filha de Iansã” fez com que ela perdesse o preconceito contras as religiões de matriz africana. Isso é uma honra muito grande!

Você dividiu o livro em três partes, erotismo, religiosidade e arte, por quê?

Essa divisão me veio num insight. Quando decidi publicar, me dei conta da diversidade presente na minha poesia e fiquei meio sem saber, mas percebi a recorrência dos temas e agrupei dessa forma. Essas questões continuarão presentes no meu próximo livro, mas já não tenho essa preocupação em dividir. Na verdade estão entrelaçados. Como diz Paulo DePaula, que assina a orelha de Desnudalmas: “Na tríade de Suely, todos os nossos estados são “Almas”. E para mim são mesmo.
Você também é atriz e dançarina, como isso reflete na sua poesia?

Descrevo-me acima de tudo como uma atriz que dança e até canta quando precisa. Fiz dança e canto buscando me preparar tecnicamente para o palco. Essa atriz também escreve poemas. Ela se desdobra em várias personagens e a poeta é uma delas. Gosto de pensar assim e me divirto. O poema “Nudez” é uma declaração de amor ao teatro. A minha relação com a poesia também é muito corporal. Quando falo um poema sinto no meu corpo, na minha carne e no meu sangue. É uma relação muito sensorial e eu acho que isso acontece pelo fato de eu ser atriz.

Como começou a relação com a poesia, por que e como começou a escrever?

O aprofundamento da minha relação com a poesia se deu exatamente a partir do teatro. Antes eu lia poesia, mas confesso que não muito. Lia mais romances. Comecei com Jorge Amado, quando eu tinha 8 ou 9 anos e causava espanto na escola por causa disso.
No início dos anos 90 participei na UFES, de um grupo de teatro chamado Guardiães da Poesia. Foi um convite da atriz e amiga Margareth Maia. Foi ali que comecei a sentir a poesia no corpo e ler mais poemas e não parei mais. Alguns anos depois comecei do nada escrever poemas. Lembro que em 1996 eu escrevi o primeiro “Dissimulação”, que está em Desnudalmas. Quando isso aconteceu, para mim foi uma grande surpresa porque eu não imaginava escrever poemas e no início eu não me considerava poeta, porque escrevia muito esporadicamente.

Com o tempo a produção foi aumentando, aí eu pensei: tenho que fazer alguma coisa com isso. Como diz Sérgio Sampaio: “um livro de poesia na gaveta não adianta nada…”. Talvez se fosse hoje eu nem publicasse ou tiraria alguns poemas, mas quando estou criando sou muito impulsiva e não penso muito. Porque se eu pensar eu não faço (risos)

Você também tem uma história de militância dentro do movimento negro, foi diretora do museu do negro. Pode contar para mim um pouco dessa história também?

Não me considero uma militante tradicional, mas participei de alguns momentos importantes do movimento negro como o Grupo Raça, na UFES no final dos anos 80 – grupo de estudantes negros, numa época em que ainda não existia a Lei 10.639 e nem as cotas. Se os negros ainda hoje é minoria nas universidades imagine naquela época. A criação do Grupo de Mulheres Negras também foi marcante. Quando o Mucane em 1993 foi criado, e a coordenação de Verônica da Pas decidiu ocupar o espaço com atividades culturais como forma de resistência eu estava lá, como muitas outras pessoas. Sou também sócio-fundadora do Instituto Elimu.

Além desses momentos de militância em entidades do movimento negro, toda a minha produção acadêmica e muito da minha produção artística traz a temática étnico-racial. Lembro-me do meu primeiro estágio no Arquivo Público Estadual, quando fiz o levantamento das fontes primárias sobre a escravidão no Espírito Santo. Depois vieram a monografia sobre a hegemonia da cultura negra no Brasil e anos depois o Mestrado em Letras e a dissertação sobre Solano Trindade.

Hoje estou mais ligada ao Grupo de Mulheres Negras Capixabas que é uma renovação e estabelece um diálogo entre mulheres de várias gerações do movimento. Fora isso continuo minha militância na vida e nos palcos.

Quando da reinauguração do museu, em 2012, Alcione Pinheiro – secretário municipal de cultura na época – me convidou para ser coordenadora do Museu Capixaba do Negro, por eu ter essa história. Eu não esperava e para mim foi uma grande surpresa. Acabei aceitando e foi um grande desafio essa experiência na gestão pública. Não foi fácil. As condições não eram as melhores e a disputa por espaços de poder era uma constante. Como sou anarquista, o poder não me interessa.

Confesso que naquele período, à medida que o tempo ia passando ali, minha produção poética caiu muito. Fui observando que eu quase não escrevia mais e sentia falta. Quando saí do museu foi libertador e me veio um poema que retrata esse momento. Ele estará no meu próximo livro e é um poema forte.

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Você fez sua tese de dissertação sobre Solano Trindade, pode falar também da importância desse poeta

A dissertação A importância da obra de Solano Trindade no panorama da literatura brasileira aponta esse autor como um dos nomes pioneiros da Literatura afro-brasileira. Ele é considerado um ícone da representação de um discurso negro na Literatura Brasileira. Não basta ser negro ou falar sobre para se praticar esse tipo de literatura. É a forma como se fala. Segundo Zilá Bernd é característica da Literatura Negra a afirmação da identidade através de “um eu-enunciador” que se quer negro. Escritores como Solano Trindade representam uma ruptura com um tipo de discurso que depreciava e estereotipava os afro-descendentes. Solano Trindade fez isso muito bem e posso citar como exemplo o poema “Sou negro”, que para mim é a afirmação máxima da negritude na Literatura Brasileira. Ele diz: Sou negro/meus avós foram queimados pelo sol da África/minh’alma recebeu o batismo dos tambores, atabaques, gonguês e agogôs…

O conceito de Literatura Negra ou afro pode causar um estranhamento, mas acho importante por ser um espaço de demarcação e visibilidade do ser-escritor negro na Literatura.

Na sua dissertação você fala que ele não é estudado no curso de letras e tão pouco há um livro dele na biblioteca. Por que você acha que isso ainda acontece mesmo depois da lei que obriga o ensino da história e da cultura negra nas escolas?

A dissertação traz também a discussão sobre a formação dos cânones literários, que são os nomes consagrados da Literatura e são esses, os nomes estudados nas escolas. O cânone exclui setores marginalizados como negros e homossexuais, escritores africanos, indígenas ou muçulmanos, por exemplo. Dessa forma, as desigualdades se mantêm e se reproduzem no campo literário.

Com a Lei 10.639/03, isso vem mudando aos poucos. Precisa mudar mais, pois a Lei é para ser cumprida. É preciso haver uma mudança de mentalidade e a superação do racismo pelo próprio sistema educacional para haver vontade política na aplicação da lei com mais empenho. Conhecer um autor como Solano Trindade é importante nesse sentido. Depois da minha dissertação sobre o escritor, quem sabe já haja livros dele na biblioteca da UFES. Eu espero que sim.

Há poucos escritores negros que conseguem despontar como escritores, mas acredito que agora está começando a conquista seu espaço, A obra Namibia, não ganhou o Jabuti, você acha que finalmente a literatura negra está ganhando reconhecimento merecido?

Fico feliz pelo Aldri Anunciação. Li a obra dramatúrgica e assisti à peça e sei que ele merece, mas ele ainda é uma exceção. Centenas ou milhares de bons escritores no Brasil e no mundo continuam produzindo sem destaque. Escrevemos porque é imperativo escrever, independente de qualquer coisa. Só para provocar termino de responder com uma pergunta: Quantos ouviram falar do centenário de Aimé Césaire, em 2013, nome importante da literatura no mundo, grande escritor da Martinica e criador do conceito de Negritude? Ano passado tivemos o centenário de Abdias do Nascimento e Carolina de Jesus em 2014. em 2008, tivemos o centenário de Solano Trindade. Esses nomes tão relevantes ainda não têm a devida visibilidade. De qualquer forma, a internet pode ser uma ferramenta importante para romper com essa situação. De alguma forma tem sido.

Eu conheço pouco da literatura produzida na África, um grande nome em ascensão é Mia Couto você gosta? Tem outros nomes para indicar?

Gosto muito do Mia Couto. Li muitos dos seus contos que são lindos, poéticos. Ano passado li o romance O outro pé da sereia. Quero ler outros. Ele realmente é um escritor tão fantástico que quando o leio penso: Como pode escrever tão bem assim? De onde ele tira essas ideias, como constrói essas frases? Penso também que muito da riqueza da sua literatura, se deve à tradição oral africana transposta para a sua escrita.
No mestrado conheci um autor angolano chamado Pepetela e lembro que li As aventuras de Ngunga e recomendo. Um dos seus romances mais famosos é Mayombe, mas eu ainda não li. Estou lembrando o nome do angolano Boaventura Cardoso. Muitos dos escritores africanos retratam em suas obras, o processo histórico da descolonização.

Você já está trabalhando em uma obra nova este ano, pode adiantar sobre o que vai ser? Será poesia de novo?

Sim. Já estou nessa produção. A prioridade é para o livro de poesia, mas tenho outras obras para publicar na área de história e infantil-juvenil. Na dramaturgia também estou escrevendo alguma coisa.

Quanto ao livro de poesia posso adiantar que deve ser lançado no primeiro semestre de 2015 e que a água é elemento recorrente. Solano Trindade que sempre me acompanha é citado em um poema e tem outro poema em sua homenagem.

 

5 Comentários

  1. Sonia
    21 de janeiro de 2015 em 08:52 · Resposta

    Tenho o livro “Desnudalmas” da escritora Suely Bispo, como leitura de sala de espera em meu consultório psicologia, são poemas instigantes e de muita beleza.

  2. lillian depaula
    24 de janeiro de 2015 em 15:33 · Resposta

    Excelente entrevista com nossa sensível e talentosa poeta Suely Bispo. O Espírito Santo tem, em Suely, voz suave e pertinente, voz forte e penetrante. Queremos mais Suely nos livros, nos palcos e na sala de aula.Viva a voz de Suely, de ouvido em ouvido, de palavra a palavra.

  3. Francisco Bispo
    13 de março de 2015 em 13:55 · Resposta

    Parabens Suely. Bela entrevista Abraço
    Francisco Bispo

  4. Sergio Fonseca
    20 de janeiro de 2016 em 11:15 · Resposta

    Parabéns pela entrevista, Suely Bispo já está entre as referencias intelectuais e literárias do ES. Uma Baiana que se apaixonou pelo nosso estado e que hoje cruza a sua trajetória com a história da cidade e os movimentos políticos e culturais das últimas décadas.

  5. célia
    29 de março de 2016 em 22:02 · Resposta

    Parabéns por fazer tudo com muita alma. Sucesso e Deus continue te abençoando
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