Entrevista: Vinicius Piedade

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Vinicius Piedade leva o teatro ao público e não mede esforços para isso, ele se apresenta com mesma intensidade seja em teatros belíssimos a presídios sufocantes. O ator faz do seu oficio o seu lazer, o seu estudo, o seu sacrifício, o seu prazer, ou melhor, o seu tudo. Vinicius é ator, diretor, escritor, é o faz não porque gosta, mas porque precisa da arte para viver.

Ele não sabe muito bem como tudo isso começou , não teve aquele estalo na adolescência que de queria ser artista e nem nada disso. “O teatro já era uma decisão antes de ter que pensar em tomar tão complicada decisão, resolução. O meu ‘ser ou não ser’ foi no palco mesmo!”, afirma.

Além de dramaturgia, você também faz literatura. Qual a principal diferença durante o processo criativo, ou não há diferença?

A literatura tem um fim em si, a dramaturgia é só uma parte do processo. Nos meus espetáculos tem o mesmo peso do corpo, dos ritmos, do jogo. Não sou dos que colocam o teatro a serviço do texto. Pelo contrário. O texto está a serviço do teatro. Para o teatro que venho fazendo, a palavra tem sido importante, mas tenho me interessado cada vez mais por um teatro sem palavra. Talvez more aí uma das minhas buscas para um futuro próximo. E escrever literatura me é essencial. Exercício diário! E muitas vezes algo que escrevi como literatura vira teatro. Mas aí é o texto passa por uma transformação mesmo. E esse é um processo que me interessa. Tenho vontade de adaptar muita coisa da literatura para o teatro. O CONDE DE MONTE CRISTO em breve vai ganhar minha voz e meus silêncios.

A peça Cárcere foi escrita por você e pelo Saulo Ribeiro, pode nos contar como foi essa experiência na qual o Saulo teve contato com presidiários e como foi você transpor essas experiências para o palco?

Saulo quem me levou pra apresentar o espetáculo CARTA DE UM PIRATA em presídios do Espírito Santo numa época em que eu estava fazendo assistência de direção para Luis Tadeu Teixeira para a peça UM FORTE CHEIRO A MAÇA que aconteceu teatro Edith Bulhões (que foi derrubado pra virar um prédio na av. Beira Mar). A experiência da apresentação nos presídios me mostrou como o teatro é humanizante e libertador. E eu quis falar sobre a liberdade através dos olhos de um cara privado da sua liberdade. E o Saulo Ribeiro de quem eu já admirava o texto e as ideias era a pessoa ideal pra isso. Pedi pra ele um texto pra que eu fizesse com um pianista, o Manuel Pessoa de LIma.

Ele entendeu que era pra fazer sobre um pianista preso. Assim nasceu o personagem Ovo. E, generoso como é, Saulo me permitiu mexer no texto quando passei para o corpo, voz, gesto, silêncio. Depois ele escreveu uma outra versão em cima da minha versão. E eu também mexi nessa versão de modo que um dia o Saulo disse depois de uma apresentação no Teatro Carlos Gomes, esse texto não é mais só meu. É nosso! Assim nasceu a parceria dessa peça que já aconteceu nas cinco regiões do Brasil, na Alemanha, na Suíça, em Portugal e nos Estados Unidos. E continua!

Outra obra sua é o livro de contos Essas moças que me causam vertigens. Há nele uma sonoridade e um ritmo na escrita. É algo que vem da sua experiência com teatro ou não é proposital?

Boa observação. Sinceramente, eu não sei! Mas sinto que quando faço literatura estou num lugar bem diferente, ou seja, não penso em teatro. Acho que os ritmos e disritmias fazem parte do meu modo de escrever que foi muito inspirado no começo pelo Rubem Fonseca que tem um ritmo alucinante na sua escrita. Mas vou pensar mais nisso que falou!

É verdade que talvez saia um segundo volume?

As moças que causam vertigens me inspiram muito. Talvez saia outro livro com temática parecida, mas não chamaria de MOÇAS QUE ME CAUSAM VERTIGENS 2 O RETORNO!

Por falar nisso, muita gente acha que são contos autobiográficos. É importante dizer que é ficção, mesmo que inspirado em coisas vividas. E claro que tem aquela máxima “toda autobiografia é ficcional e toda ficção é autobiográfica”.

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E a peça Identidade, como surgiu a ideia do personagem que é um publicitário que perde a memória?

Surgiu quando eu perdi a memória! Na verdade não foi por mais de cinco minutos, mas me marcou o suficiente pra eu querer investigar o tema. Estava no aeroporto de Frankfurt depois de longa turnê, cansado, querendo voltar pra casa, quando percebi que não sabia qual era minha mala. Depois me perguntei que aeroporto era aquele e em seguida quem eu sou. Só consegui descobrir qual era minha mala. E a pergunta essencial da peça é justamente QUAL É A MINHA MALA? Que traz consigo todas as outras questões.

Cárcere, Identidade, As 4 estações, entre outras são espetáculos que passarão aqui por Vitória, qual sua relação com a cidade?

Cidade linda, abraçada com Vila Velha e de gente acolhedora! Nick Teixeira e Reginaldo Secundo que conheci num festival de teatro no Piauí me convidaram pra fazer uma peça por aí em 2006 e foi a primeira de muitas. Todos os meus espetáculos já passaram por aí. E sempre aproveito e fico mais tempo na cidade, aproveitando os amigos, as praias, enfim, me sinto bem aí!

E a sua experiência como diretor, tem acrescentado algo a sua postura como ator ou indefere?

Cada vez mais me dedico a direção. Adoro dirigir atores e atrizes. E olhar o espetáculo como um todo, encenar. Acho sempre engraçado quando ouço algumas pessoas dizendo “esse é um diretor de ator e aquele é um diretor de cena”, como se fossem coisas diferentes e incompatíveis. Diretor é como técnico de futebol. Tem que pensar no esquema tático (estética da peça), mas também como seus jogadores (atores) devem executá-la. Alguns dos meus solos eu mesmo dirijo. Apesar de ter assistente de direção, penso que direção de teatro é autoria e assino porque existe uma proposta de encenação.

Como diretor e autor, fora do palco, esse ano vou estrear PAIS E FILHOS, NINGUÉM VAI RIR, DIAS DE ANESTESIA e UM DIA MUITO ESPECIAL. Espero conseguir levar alguma dessas peças pra Vix!

Em carta a um Pirata, você escreve, dirige e atua, como é trabalhar dessa maneira? Você gosta de ter o controle de tudo?

CARTA DE UM PIRATA foi resultado de um projeto chamado SOLOS DO BRASIL em que pesquisamos o Teatro Essencial de Denise Stoklos, qie propunha justamente que o ator assumisse todas essas funções. Coincidentemente (ou não), eu já trabalhava dessa maneira antes do trabalho com Stoklos. De modo que foi pra mim natural seguir essa linha de pesquisa/trabalho. Quando escrevo uma peça, já penso na encenação. E quando atuo, tento efetuar as recomendações do eu-diretor/autor. Coisa de louco, né?

Alias, esse espetáculo completou 10 anos, o que significou essa década na sua trajetória como artista?

Foi emocionante apresentar a peça no mesmo teatro onde a peça estreou há dez anos no Centro Cultural São Paulo. Imagens de tantas apresentações e tantos contextos físicos e sociais diferentes! Foi um dos momentos mais marcantes da minha vida! E CONTINUA!!!…

Quais as maiores dificuldade que você enfrentou nessa década?

Estou sempre olhando pra frente. É um modo de não me deixar abater pelas adversidades. A luta é grande, mas SEMPRE compensa.

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