À deriva

livros-por-livia-musica-no-corpo-de-fugaA cidade e o corpo, o concreto e a memória, as ruas e as artérias, tudo sangra e pulsa em um mesmo ritmo no romance Música no Corpo de Fuga (Pedregulho – 2014), de Fabrício Fernandez. A história segue os movimentos de dois personagens, Lucas, um jornalista que quer mudar de profissão, e Juli, um jovem andrógino em momento de transição de gênero.

Há também duas cidades que, além de cenário, atravessam esses corpos. Brasília e Vitória são invocadas diversas vezes, uma representa o planejamento que nunca chegou ao ideal enquanto a outra é o crescimento natural e descoordenado.

Caótico como a vida urbana, a narrativa de Música no Corpo de Fuga é constantemente interrompida por passagens, a princípio, descoladas da história principal. Fabrício Fernandez utiliza um recurso literário denominado Interrupção para Incidente (Ipi) para contar essas memórias perdidas no meio do romance. A trama é também cortada por um fluxo de consciência labiríntico.

A linearidade da história é fluida e escorre pelas páginas. Há fissuras, feridas, ruas sem saída, caminhos turbulentos, poros abertos, passagens obstruídas, transpiração. E no meio disso tudo pessoas tentando levar suas vidas sem ficarem presas às ferragens.

O corpo, como diz o título, está em fuga, mas ao mesmo tempo sedento pelo encontro. O sexo casual aparece como válvula de escape, mas há também uma urgência em se sentir parte de alguma coisa, uma vontade de ficar, mas os personagens sempre acabam partindo/partidos.

Esses corpos fragmentados são levados pelo movimento do metrô e em cada estação há uma trilha sonora diferente indicada pelo autor. Música no Corpo de Fuga é para ser ouvido, lido e digerido.

Sobre o autor

Fabricio Fernandez, nascido na década de 1970, é jornalista e cineclubista. Autor da trilogia Nome Nenhum (Multifoco), Música no Corpo de Fuga (Pedregulho). Escreveu o livro-reportagem Rosa Helena Schorling – Além da Folha de Vento. Atualmente, escreve o terceiro livro da trilogia, o Autohystória, e também a anti-biografia do cantor e compositor Aprígio Lyrio, e é mestrando em Comunicação e Territorialidades (Ufes).

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