Elas por elas

10996070_1648422205371611_2729699511817891721_oAinda se discute se existe ou não uma literatura exclusivamente feminina, algo de específico no tom de se contar histórias, um estilo que se difere dos autores homens. Independente disso, apenas as mulheres podem falar como mulheres, nunca um homem poderá dar voz a uma personagem feminina com a vivencia necessária.

E nem por isso nossas histórias são menores do que as deles ou não passam do tom confessional dos diários. Há mulheres e homens ficcionistas incríveis e ambos usam a vida pessoal como matéria prima. Mara Coradello é uma dessas vozes femininas que dá vida as suas personagens em Histórias de amor recolhidas ao acaso (2013).

Histórias de amor costumam ser o tema preferido dos contistas. Os enredos acabam se assemelhando, mas o que torna as histórias diferentes umas das outras é o estilo e a estrutura que os escritores se utilizam. Mara Coradello é desses contistas que consegue surpreender o leitor com uma simples discussões entre um casal ou com uma história de amor não correspondido.

Em seu terceiro livro, Histórias de Amor recolhidas ao acaso, a autora explora o suspense e vai revelando aos poucos as verdadeiras intenções de seus personagens. O primeiro conto, Fora do Ar, que parece apenas mais um relato de uma garota apaixonada fugindo com o namorado acaba dando uma rasteira no leitor que espera a delicadeza do amor romântico.

Em um de seus contos Mara também homenageia outro escritor capixaba. Em Bondage, a escritora lembra os trocadilhos com o nome Suely, que Reinaldo Santos Neves faz em seu livro homônimo. Esse conto descreve bem a crueza com que Mara gosta de retratar seus personagens.

Outro conto que reflete muito bem o estilo de Mara Coradello é Profanação – Para ler em voz alta. Não há ação nele, mas o fluxo de consciência toma conta e pensamentos se contradizem e se complementam. A relação com a literatura de Clarice Lispector é inevitável, mas Mara consegue imprimir sua própria voz nos contos.

Com personagens passionais e sempre com uma narrativa irônica e sofisticada, Mara Coradello vai contando suas histórias sem pena de revelar a crueldade que envolve alguns relacionamentos. Como no conto Bourdeaux, no qual uma assassina diz que “a maior forma de adorar é matar”.

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