Flashes do cotidiano

 

capa final contos e microcontos (2)Contos e Microcontos (Secult/2013) é feito de histórias curtas e curtíssimas que ficam remoendo no leitor por algum tempo, histórias que pedem que você preencha as lacunas e imagine um final para os personagens. Apesar de ser um pequeno livro, ele pede uma leitura lenta e minuciosa. Ler esses contos apenas uma vez não basta, é preciso relê-los para tentar absorver seus detalhes.

A coletânea de pequenos contos, primeiro livro de Sarah Vervloet, mestranda em estudos literários pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), revela uma literatura muito sensível. Uma poesia disfarçada de prosa muito bem trabalhada e burilada, na qual apenas as palavras certas são eleitas para contar suas histórias de modo que nada sobre no papel.

Sarah explora situações cotidianas e, a princípio, banais para falar de um sentimento maior. Como no caso do primeiro conto, A mulher que controlava os pães, no qual uma mãe fazia pães e para ela a felicidade da família dependia desse alimento. Isso acaba gerando um conflito, porque a família começa a enjoar dos pães e pede que ela pare de fazê-los. Sarah descreve a situação com tanta delicadeza, que transforma a dor da mulher, que não pode mais alimentar sua família em algo universal.

Há também uma tristeza nos contos de Sarah, mas as histórias acabam passando uma mensagem positiva no final. Contanto que eu não chore, por exemplo, fala sobre uma senhora que esta prestes a morrer e dedica sua vida a cuidar de um casal de galináceos.

Logo ela descobre que a galinha esta chocando ovos, mas é nesse momento que a senhora é internada. Entretanto, ela não quer partir antes de ver os pintinhos nascerem. O conto narra a iminente morte da mulher, mas também as novas vidas que estão a caminho.

Contos e Microcontos é dividido em Dia e Noite. Na primeira parte, os personagens são mais inocentes e alguns são inconformados com a sua situação. Já em Noite, a maioria das histórias são desesperançosas e os personagens parecem apenas aceitar seus destinos.

O conto Um conto ou um real, que inicia a parte da parte denominada Noite, descreve uma vendedora falida com maquiagem borrada e o coração partido, que quer apenas dar um fim rápido a sua dor. Nesse conto a autora faz pequenas digressões comentando de que forma seria melhor que sua personagem pensasse e agisse e o final da história vem como um corte seco.

Minha personagem está sentada nessa cama e não consegue enxergar nada a sua volta, também não faz nenhuma questão disso. O que ela também não sabe é que as paredes do quarto formam caminho de mofo por todos os lados, e isso me parece ruim. Ela mesma havia comentado uma vez que sofria de alergia cronica a umidade ou coisa parecida. O nome da minha personagem é Lucrécya. Pouco se sabe sobre ela, mesmo que ainda se saiba sobre suas alergias (Um conto ou um real, p. 49)

Momento de ar, outra história em Noite, fala da inadequação, da dificuldade de se adaptar em um ambiente novo. Um peixe com vontade de voar descobre que ar fora d’água não é o bastante para ele respirar.

Sarah explora várias vozes em seu livro, tanto femininas como masculinas e também infantis. Nesta ela descreve muito bem o olhar de uma criança diante das coisas, curioso e perplexo, que ainda não compreende o que vê.

Sarah Vervloet termina o livro com o conto A vida em um pulo, que também transita entre a vida e a morte e mostra uma mulher prestes a se jogar da Terceira Ponte. Um pulo que pode significar o fim ou também um recomeço.

A autora

Sarah Vervloet nasceu em Vila Velha, no Espirito Santo, em 1989. É graduada em Letras-Português pela Ufes e atualmente cursa o Mestrado em Letras/Estudos Literários e mantém o blog www.chadechama.blogspot.com.br

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Podcast: entrevista no programa Tarde Tomada

3 Comentários

  1. 9 de janeiro de 2014 em 15:33 · Resposta

    gostei bastante da resenha, muito embora eu prefira literatura de outra espécie. algo como john fante.
    voltarei por cá mais vezes!

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