Literatura no volume máximo

 

CatamaranCinco garotos com seus vinte e poucos anos se conhecem em um bar e imediatamente resolvem montar uma banda. Lou, Joey, Johnny, Steve e Don, os nomes que lembram ícones do rock são na verdade os personagens dos contos do livro Catamaran (Cousa / 2013), do jovem escritor Leandro Reis.

A banda que dá nome ao livro, e também ao bar onde tudo começou, segue um caminho pelos escombros rumo ao caos estrelado. As pequenas histórias contam, com certa continuidade, a ascensão e a queda do Catamaran, além de revelar em tom confessional as excêntricas experiências dos músicos, que vivem uma vida desregrada, regada a álcool, drogas e sexo.

E tudo parece divertidíssimo para quem está de fora, mas o diferencial do livro é mostrar esses personagens nos bastidores e todo seu niilismo e decadência. A escrita visceral de Leandro Reis escancara toda a tristeza dos jovens rockeiros e torna suas histórias ímpares em um contexto já bastante explorado.

Os contos – ou capítulos, como eu prefiro chamar – são velozes como os acordes das canções punks. Histórias mais curtas e objetivas se misturam a outras mais metafóricas e imagéticas, que criam cenários desoladores como o que aparece no conto Roadhouse Blues: “Cidades grandes são enormes corações doentes, com artérias infecciosas que espalham pus pelas ruas (…) A cidade bombeia meu corpo para um bar da esquina”.

O gosto por lugares sujos, botecos ou qualquer outro inferninho é uma vontade de estar perto da verdade e longe da hipocrisia que a limpeza impõe. Entre um cigarro e outro, doses de whyski e groupies, a solidão vai tomando conta pouco a pouco de cada um dos membros da banda, mesmo com tantos fãs a gritar seus nomes, os quartos só ficam cheios enquanto duram as festas.

Eu sei que Deus está no rádio,
repetindo algum slogan velho,
checando as estações.

Don, que narra a citação acima, é uma espécie de protagonista. O guitarrista é talentoso, mas autodestrutivo, tem em sua namorada, Pam, seu único porto seguro. O músico se deixou levar pela vida de forma apática, só se preocupava com o prazer sem medir as consequências. “Hoje vou tomar veneno até ficar imune”, adverte Don, logo nas primeiras páginas.

O escritor se utiliza de toda a violência e a libertinagem do rock’n roll para compor sua obra. Além do nome dos personagens, quase todos os títulos são nomes de músicas, há Lobão, Radiohead, Sparklehorse, The Doors, Black Sabath. Ao final do livro há fragmentos de um diário que narra pequenos episódios que preenchem algumas lacunas deixadas pelos contos.

Catamaran é sobre todas as coisas que cercam o cenário do rock como arrogância, decadência e hedonismo. Mas é também sobre o ser humano inadequado, que não consegue se encaixar no sistema.

O autor

Leandro Reis nasceu no Espirito Santo, em 1990. Cursa jornalismo na Ufes, reduto do grupo de discussão e produção literária Cronópio, do qual faz parte desde 2009. Catamaran nasceu de sua paixão pela música e dos delírios do coletivo. Atualmente trabalha no romance Àqueles que se perdem.

1 Comentário

  1. 26 de novembro de 2013 em 00:25 · Resposta

    <3

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