Literatura vira-lata

13072014_CAPA-ESPALITANDOA crônica e o conto se fundem muito bem no livro Espalitando (2013), de Paulo Bono. De narrativa veloz, o autor escancara os momentos mais esdrúxulos da vida de um personagem que é batizado com o seu próprio nome. O livro traça uma linha do tempo da vida de Paulo, que começa com as lembranças da infância pobre na Lapinha, bairro do centro antigo de Salvador, até a vida medíocre de um publicitário falido.

Situações embaraçosas, que a maioria das pessoas tentaria esconder, são escancaradas com leveza e bom humor pelo autor que se diverte com sua falta de sorte. Mas por trás da linguagem chula e dos palavrões, há algumas doses de arrependimento e nostalgia por parte do personagem, que tem seus momentos de reflexão.

Mas Bono não se deixa abater e faz piada da sua aparência física – ele é gordo e careca -, da sua falta de talento profissional e dos seus relacionamentos frustrados. Mas há nesse pessimismo um orgulho em ser perdedor e um apreço pela sujeira, que apesar da crueza é melhor do que a hipocrisia disfarçada da moral e dos bons costumes.

Irônico, cínico e mal educado, Paulo Bono consegue entreter o leitor com seus causos ora mal sucedidos e ora, inacreditavelmente, vitoriosos. A maneira como ele descreve Salvador é bem peculiar, a cidade é fria, triste e preto e branca. O sexo e a violência também estão presentes na obra e são abordados de forma direta e sem qualquer pudor.

O livro reúne as melhores crônicas e contos do blog Espalitando Dente, que o escritor mantém desde 2006. Na literatura de Paulo bono não há heróis, ninguém é salvo, mas as risadas são garantidas. Apesar das passagens divertidas e dos diálogos interessantes, o autor não consegue desenvolver suas personagens femininas. Todas são estereotipadas e objetificadas pelo personagem, que assume uma postura machista em quase todos os contos.

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