O lirismo dos bêbados

capa-clandestinoUm Caulfield que envelheceu, um Gregor Samsa desamparado ou apenas mais uma alma inquieta vagando numa cidade grande. Assim é Nel Renato, personagem do livro Clandestino (Independente / 2013). O romance conta a história de um homem já aos quarenta anos, mas que evita a todo custo a estabilidade e o conformismo. Enquanto vaga pelo centro de São Paulo refletindo sobre os rumos incertos que sua vida tomou, Nel precisa tomar uma decisão.

O autor desse romance de alma beatnik é Nene Altro, que antes de tudo é cantor e compositor da banda de hardcore Dance of Days, grupo paulistano que já tem mais de 15 anos na cena alternativa nacional e cerca de 10 álbuns lançados. Viver na marginalidade e na estrada é a vida do escritor, que se assemelha muito ao personagem principal de Clandestino, um homem que não pertence a lugar nenhum.

Clandestino é o primeiro romance de Nene Altro e a sua terceira publicação literária. Ele já lançou dois livros de poemas, Os funerais do coelho branco (Edições Ideal / 2005) e O diabo sempre vem pra mais um drink (Teenager in a Box / 2011). Seus dois primeiros livros são mais orgânicos e confessionais, misturam violência, ternura, sexo e amor. Tudo isso em versos desorganizados em fluxos de consciência.

Quando deixei de ser um garoto? Eu não sei. Tinha mais ou menos a idade dele quando saí de casa, todo magrelo, braço comprido, nariz esquisito. Escrevia coisas que queria pra me sentir à parte do mundo em minhas camisetas. Na verdade me sentia assim a maior parte do tempo. À parte do mundo. Qual foi a parte do filme da minha vida que eu perdi? Como meu corpo ficou mais pesado, cansado e tudo ficou tão esquisito? (p. 17)

Apesar de ser sua primeira experiência em prosa, o pequeno romance Clandestino não foge ao estilo do escritor. A intertextualidade com suas próprias letras e suas influências literárias, musicais e cinematográficas estão todas escancaradas em suas linhas. Entretanto, o livro tem suas especificidades, Nene Altro finalmente se liberta da escrita versificada e experimenta contar uma história linear.

Mas a história de Clandestino segue uma linearidade própria com algumas interrupções. O personagem Nel é assombrado por contos que escreveu quando jovem. Contos idealistas que foram publicados em um dos inúmeros fanzines que ele produziu na adolescência. “Mas zines eram assim, como bilhetes de socorro dentro de garrafas atiradas ao oceano. Sabe-se lá quem ia pegar, quem ia ler, se ia gostar.” (p. 38)

E quem se interessou foi um editor de livros, que fica encantado por esse grupo de contos, que Nel escreveu sob o pseudônimo de Nora Lente quando tinha 17 anos – Nora Lente na verdade é um anagrama de Nel Renato e também um anagrama para Nene Altro. Entretanto, os poemas que estão ali não significam a mesma coisa de antes para o autor e ele reflete se vale mesmo a pena ressuscitar a Nora Lente só para ganhar um dinheiro e realizar um capricho do editor.

A confusão do autor com o personagem é outra característica da obra de Nene Altro. O escritor se expõe sem nenhum pudor. Mas a discussão se a obra é ficção ou realidade é o que menos importa, porque para Nene Altro “Escrever é vomitar, e deixar apodrecer / é apenas suprir mais uma necessidade fisiológica / como respirar comer dormir”, como ele escreve em um dos versos de O diabo sempre vem pra mais um drink.

O Autor

Nene Altro tem 40 anos. É músico e escritor, anarquista e individualista. Seu trabalho pode ser acompanhado através de seu blog nenealtro.wordpress.com ou no twitter @nenealtro

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