Que isso fique entre nós

libro_brQuem já assistiu De Olhos Bem Fechados de Stanley Kubrick tem no imaginário que sociedades secretas são grupos fechados de milionários que cultuam a beleza e o sexo. E é exatamente desse tipo de sociedade que Sasha Grey trata em seu romance de estreia The Juliette Society (Leya / 2013). Entretanto, essa comunidade fechada é deixada um pouco de lado para dar espaço a história da protagonista, a sonhadora e curiosa Catherine.

A moça é uma estudante de cinema que mora com o namorado, Jack. Apesar das intensas investidas da jovem, o casal sofre por um momento de crise de relacionamento. Ele está sempre ausente ou trabalhando o que faz com que Catherine se sinta sozinha e tentada a embarcar em situações perigosas junto com sua colega de classe Anna.

As duas se conhecem quando Anna descobre o desejo que Catherine tem por um de seus professores. Anna revela que tem um caso secreto com o professor e conta histórias absurdas sobre a vida sexual dos dois, tudo justificado pelo Complexo de Édipo e outras teorias Freudianas. E esse um dos pontos chatos do livros, querer explicar tudo.

Anna é uma personagem divertida e liberal que apresenta a Catherine um mundo de sexo e poder e Catherine vai perdendo aos poucos todos os seus pudores para fazer parte desse mundo também. A jornada sexual começa em sites pornográficos nos quais Anna gosta de se exibir, passando por uma “boate” chamada Fuck Factory até chegar a famigerada Juliette Society.

Se você nunca ouviu falar da Fuck Factory, você provavelmente nem imaginava que um lugar como este existia. E mesmo que você tenha suposto pelo nome que tipo de lugar é – o que, vamos ser honesto, na é lá muito difícil – você provavelmente não faz ideia do que acontece lá dentro. (pág. 85)

Como apaixonada por cinema, Catherine gosta de comparar tudo na sua vida a filmes e de fazer metáforas com cenas icônicas do cinema americano e francês. Alguns dos filmes citados são Um corpo que cai, Psicose, O último tango em Paris, A Bela da Tarde, Cidadão Kane . O livro faz referência a outros inúmeros filmes, mas é uma referência óbvia que fala o nome do filme e ainda uma pequena resenha, parece que ela quer dar o recado “olha só como eu estudei cinema”.

Apesar dessa necessidade de deixar tudo bem explicado e explícito, o interessante do livro é a imaginação fértil da personagem, que a todo o momento tem um sonho erótico – ou alguma alucinação que se confunde a realidade. Esses momentos de delírio da personagem, ao mesmo tempo em que são importantes para a trama se desenvolver, também servem para interromper algumas cenas e deixar o enredo menos linear.

E são nesses momentos que a autora explora o gênero erótico, descrevendo pequenos contos dentro do romance. As cenas são bem escritas e envolventes, a linguagem é crua e o sexo é diversificado, divertido e muitas vezes – dependendo do leitor – insano. O sexo se torna um personagem independente e essencial á história.

Esses sonhos são tão constantes que chega um ponto em que não se tem certeza do que realmente aconteceu ou o que foi fantasia e essa confusão é muito interessante. O leitor chega a duvidar se lugares como a Fuck Factory existem mesmo e também questiona a existência de alguns personagens. Mas ao final Grey acaba com o êxtase do leitor e tenta explicar tudo, amarrar as pontas soltas e acaba esbarrando em um final previsível. Entretanto, nem tudo é esclarecido e é bom que fique assim, nada de continuações, por favor.

A autora

Sasha Grey é o nome artístico de Marina Ann Hantzis. Nascida em Los angeles, Sasha é ex atriz pornô, e hoje atua como escritora e fotógrafa. Utilizou originalmente o nome Anna Karina (inspirada na ex-mulher de Jean-Luc Godard), antes de se decidir pelo nome atual. Ela afirma que o sobrenome “Grey” representa o romance O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e também a escala Kinsey de sexualidade.

 

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